
"Prefiro não me identificar. Quero que me chamem apenas de pastor
evangélico. As razões para não declinar meu nome são
muitas. Talvez a principal delas seja a minha necessidade de desabafar, abrir
o meu coração.
Para ser pastor hoje, já não basta ser piedoso, íntegro
e terno de coração.
Necessito também ser empresário. Sei que os pastores de antigamente
gastavam muito tempo orando, jejuando e buscando direção de Deus
para suas comunidades. Eu, pelo contrário, sinto-me forçado a
montar um bom departamento de relações públicas. Reuno-me
regularmente com um grupo de trabalho para traçar estratégias.
Não sei quantas horas já gastei nas salas de espera das emissoras
de rádio e de televisão. Negocio bons horários
para que o nome de nossa igreja permaneça visível. Já me
alertaram para o fato de que o meio acaba definindo a mensagem. Participei de
um encontro de reflexão em que um palestrante nos advertiu que esse fascínio
pela mídia vai acabar esvaziando os conteúdos de nossa pregação.
"A televisão" - fomos advertidos - "não cobra um
preço muito alto só em dinheiro, mas em relevância".
Ouvi que a televisão não permite, por ser um veículo de
entretenimento, que se reflita com profundidade sobre nenhum assunto. Concordei,
mas entendo que estamos numa corrida de sobrevivência e se o nome de nossa
igreja não ficar conhecido, continuaremos obscuros e pequenos.
Admito que a maioria dos programas de televisão evangélicos não
se preocupa muito com aquilo que entendíamos ser a legítima exposição
da Palavra de Deus. Quando não fazem propaganda da igreja, anunciam uma
mensagem muito açucarada, só prometendo prosperidade, cura ou
alívio para os sofrimentos.
Há mais no evangelho, mas temos de nos conformar com os tempos, acho!
Sinto saudade daquela antiga pregação do evangelho sobre o pecado,
arrependimento, o poder da cruz em salvar o pecador, o discipulado cristão
e a esperança do retorno de Cristo. Por outro lado, quando me levanto
em meu púlpito para pregar, sei que meu auditório está
cada vez mais analfabeto em Bíblia. Minhas reflexões caracterizam-se
pela superficialidade, pois as pessoas dos dias de hoje não aceitam muitas
exigências. Já risquei de meu vocabulário todas expressões
que possam ferir as suscetibilidades. Já não falo muito em temas
como: negar a si mesmo e tomar a cruz; crucificar o velho homem com suas paixões,
sofrer por amor a Cristo. Faz anos que não ouço mensagem sobre
os caminhos estreito e largo. Gosto de procurar em livros de auto-ajuda mensagens
que estimulem as pessoas a se sentirem de bem com a vida. Especializei-me em
ensinar a orar reivindicando os nossos direitos de filhos de Deus.
Nossa igreja sabe desfazer maldições espirituais. Sei que não
há muitos desdobramentos em repetir slogans religiosos, mas o clima do
culto fica eletrizante. Se as pessoas não praticam o evangelho em suas
vidas é problema delas; para mim, basta que nossos cultos sejam uma festa.
Perturba-me esse entra-e-sai de gente em nossa comunidade. As pessoas parecem
não ter raízes. Disseram-me que nós, os pastores, somos
responsáveis por criar consumidores de religião e, não,
comunidades. Que mal pode haver
se as pessoas procuram um bom programa religioso, boa musica, ambiente confortável?
Não aceito que minha preocupação de entreter (alguns jovens
chamam de paparicar) meu auditório, em vez de me esforçar em formar
neles o caráter de Cristo e os valores do reino, sejam a causa de tanta
mobilidade.
Recuso-me a esvaziar minha platéia propondo solidez de princípios.
Do jeito que vimos fazendo, a casa está lotada. Com cadeiras vazias,
quem paga minhas contas? Chega de purismos. O espírito de nossa época
é mesmo de pouca
fidelidade. Pra que tentar lutar contra as tendências de uma geração?
Darei o que as pessoas querem. Resolvi. Convidarei bons cantores, bandas que
estejam movimentando as multidões; trarei pessoas com testemunhos de
impacto; freqüentarei os movimentos de maior badalação para
saber quem é quem no mundo evangélico. Darei uma cara nova aos
nossos cultos.
Construirei uma mega-igreja. Quem tem mais gente pode mais no mundo religioso.
Conheci alguns pastores que viveram uma espiritualidade diferente, mas a geração
deles está passando. Resta um remanescente de homens piedosos, creio
que em extinção. O perfil do pastor de hoje evoluiu muito. Somos
muito
mais aguerridos, mais intrépidos. Os resultados são visíveis.
O discurso
piedoso desses homens conseguiu ganhar apenas 1% da população
brasileira em quase 100 anos de evangelização. Minha geração
aumentou esse número para 10%.
Admito que esses números não refletem mudanças no analfabetismo,
na violência urbana nem nas perversas injustiças sociais. Contudo,
quando anularmos o poder dos demônios que dominam determinadas regiões
do país e com nossa nova palavra de ordem - "O Brasil é do
Senhor Jesus! Povo de Deus, declare isso" -, reverteremos esse descompasso.
Ando triste e cansado. Alguma coisa me rasga por dentro. Não entendo
porque me dou tanto e continuo tão arrasado. Agora você entende
porque preferi não dizer o meu nome. "
Fonte: Simplesmente Jesus