

Julio C. Gonçalves
Com o advento da chamada "nova era", em que as pessoas estão
mais sedentas de conhecimentos e de evolução espiritual, muitas
pessoas correram para o Judaísmo em busca da antiga Cabala.
É interessante observar que este fenômeno está gerando um
número muito grande de gurus, mestres, "ravs" e rabinos cabalistas,
visando lucrar um pouco com a explosão do interesse pela Cabala.
No entanto, somos obrigados a formular algumas perguntas que necessitam de suas
respectivas respostas para que possamos entender melhor a Cabala e o fenômeno
que a envolve neste início de milênio.
Qual a diferença existe entre a Cabala original e a que, hoje em dia,
cuida dos amuletos, da magia, da bruxaria? Em quem devemos acreditar se desejamos
estudar Cabala de maneira séria?
O que primeiro devemos entender que a Cabala original (em hebreu, Kabbalah Yunit),
a Cabala Contemplativa; que nada tem a ver com a bruxaria ou magia ou amuletos;
é uma série de estudos intelectuais que tratam do misticismo,
da filosofia judaica de ir mais além intelectual e espiritualmente.
Este estudos se originaram na Espanha, do século XII ao XVI. Era, então,
um estudo esotérico, mas não de magia ou outra coisa. Tratava
da união do homem com D'us e era uma disciplina mental e espiritual.
A partir do século XVI veio o colapso da civilização judaico-espanhola,
que é a que deu origem à Cabala. Neste ponto, a atitude com que
se tratava os assuntos místicos mudou. Ao invés de tomas uma atitude
contemplativa de procurar entender o porquê do universo, se adotou uma
atitude manipulativa, na tentativa de mudar o universo para que essas coisas
não voltassem a ocorrer. Neste momento, surgem todas as superstições
da Cabala, com amuletos, magias, adoração aos mortos e diversas
coisas que o Judaísmo condena e considera pura idolatria.
O florescimento da Cabala, se deu a partir do século XII, no leste espanhol
e sudeste francês, em toda a região conhecida como Catalunha, quando
surgiu uma filosofia humanista, muito ligada com o misticismo. Ao contrário
do bruxo, que desejava manipular a realidade, o místico buscava entender
o que estava oculto no universo e seu sentido simbólico. O místico
buscava a união entre todos os homens e o universo.
O que os rabinos místicos diziam era que todos deviam procurar o sentido
oculto escondido na Torah. Isso não é magia. Esse é todo
o sentido da Cabala original.
Com a chegada do século XIII, veio à público o que se toma
como a obra mestra da Cabala: o Sephar há-Zohar (O Livro do Esplendor),
que foi publicado pelo rabino Moisés de Leon, em 1274. Segundo o próprio
de Leon, o espirito de Shimeon Bar Yohai o revelou.
Para Moisés de Leon, o objetivo principal da Cabala era tentar entender
e descobrir o esquema oculto do universo. O Zohar fala da Árvore da Vida,
que é uma estrutura das distintas emanações de luz, cada
uma representando uma Virtude Divina, e que engloba a totalidade de D'us.
A Árvore da Vida é um simbolo que representa a estrutura do universo
e do homem. Ela vê o universo como macrocosmos e o homem como microcosmos.
Ou seja, o homem é a representação em tamanho menor do
universo.
No entanto, a Árvore da Vida não é D'us. É uma imagem
através da qual a mente humana poderia tentar compreender a D'us.
Outro conceito muito importante na Árvore da Vida é o conceito
do equilíbrio. Todas as suas virtudes têm o seu oposto ou seu complemento.
Por exemplo, Binah, que é a Intuição, está equilibrada
com Chochmah (Sabedoria). Isto significa que a Intuição sem a
Sabedoria é algo sem controle e incompreensível. Do mesmo modo,
a Sabedoria sem nenhuma emoção, passa a ser um conhecimento sem
nenhuma iluminação, que é o que precisamos para chegar
na essência das coisas.
Até o início do século XIV, os escritos da Cabala na Espanha
são muito elevados intelectualmente, chegando a ser mais rebuscados que
o próprio Talmud. Nos meados do século XIV, se começa a
verificar uma troca para a magia. No ano de 1391, um século antes da
expulsão, foram criados uma série de programas contra os judeus
da Espanha. Neste ano, a comunidade judaico-espanhola foi dizimada. Em 1492,
Fernando e Isabel estavam expulsando menos da metade de todos os judeus que
viviam ali.
Para entendermos essa virada (o que não quer dizer que aceitemos), devemos
ver a Inquisição batendo à nossa porte e queimando a nossa
mãe, nossos filhos, nossa família. É muito fácil
ser contemplativo quando se está de bem com a vida, e, naturalmente,
a Inquisição não coloca ninguém de bem com a vida.
A reação foi de desesperança e de uma vontade quase histérica
para mudar essa realidade. A tentativa de manipular os poderes da natureza para
que esta se modifique, chegou com esse desespero.
A partir deste episódio, começaremos a ver a Cabala Prática,
não mais a Cabala Contemplativa. Isso já é magia.
Neste período surge o uso, entre os cabalistas, dos amuletos. Não
que seu uso não era conhecido anteriormente. O próprio Rambam,
no século XII já condenava essas práticas. Mas ela não
era associada aos cabalistas, mas aos curandeiros, gente de pouco valor para
a comunidade.
O massacre de 1391 foi uma tragédia tão grande, que conduziu à
degenaração de uma cultura inteira. Todos começaram a carregar
vários amuletos contra o mal-olhado.
Na época da expulsão, o judaísmo espanhol está numa
histeria desenfreada, como uma visão do Apocalipse, e não havia
tempo para estudar de modo contemplativo e filosófico. Esta atitude histérica
do século XV, vai penetrar no mundo ashkenazi, que também passava
por um momento difícil. O que os ashkenazis pegaram dos safaradis não
foi o Zohar intelectual, mas o Zohar interpretado com o novo olhar de desespero,
pois os cossacos estavam fazendo a sua própria matança, e eles
não eram muito melhores que os inquisidores espanhóis.
Neste período, chegamos as lendas como a do Golem, que era uma espécie
de ser que não era exatamente humano, criado de acordo com uma fórmula
cabalística secreta.
Essa lenda vem da Tchecoslováquia, do século XVI, quando chegam
os primeiro refugiados da Espanha. Como os refugiados foram para este país
e outros para a Polônia, chegaram junto com eles as influências
da Cabala.
Nos dias de hoje, convivem a Cabala Contemplativa e a Cabala do Desespero.
E o que fazem os estudiosos sérios da Cabala? Estudam a Cabala para entendê-la,
desde o seu início e sua passagem através dos séculos.
Estudam o Zohar, os escritos dos principais cabalistas, procurando entender
o que se passou nos diversos progroms que fizeram sofrer os judeus e analisando
como mudou o pensamento cabalístico.
Para analisarmos quem se diz "mestre", devemos analisá-lo.
Se este diz que tudo é mistério e que não se pode entender
nada, deixe-o de lado, porque está colocando um véu de mistério
sobre algo que pode ser estudado. Por outro lado, se tenta ensinar como um sistema
barato de auto-ajuda, sem tentar aprofundar os ensinamentos, deixe-o de lado,
também.
Os mestres devem entender a Cabala, e ao mesmo tempo ter uma atitude crítica
com relação a ela. Os primeiros cabalistas não se propunham
a criar um nova doutrina, buscavam entender o universo e a relação
do homem com D'us e com o mundo ao seu redor. Este deve ser a atitude, tanto
do mestre quanto do discípulo. A Cabala não é uma panacéia,
que se compra no bar da esquina e que cura todos os males. Antes, a Cabala é
uma forma de entender o mundo e nossa relação com ele.
Nota: (Baseado no texto "CABALA CONTEMPLATIVA, CABALA DEGENERADA",
de SHARONA FREDERICKO, publicado em www.wzo.org.il/spanish/recursos/sharona_9912.html
<http://www.wzo.org.il/spanish/recursos/sharona_9912.html>)